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PORTUGAL, FUTURISMO E AMADEO DE SOUSA CARDOSO |
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Este projecto académico, leva-o a Paris no ano seguinte, mas aí chegado decide interromper os estudos para se dedicar em exclusivo à actividade artística. Já em Paris, frequenta as academias livres e convive com outros artistas portugueses que ali se encontravam, tais como Francis Smith, Manuel Bentes, Alberto Cardoso, Emmerico, Eduardo Viana. Contudo com estes, mesmo nesta fase embrionária, mantém alguma distância e reserva. Entre os compatriotas Amadeo notabiliza-se por uma invulgar habilidade para a caricatura, que desenvolve desde 1905 e que desde então lhe merecem rasgados elogios. A sua ida para Paris, é uma necessidade e uma aventura, simultaneamente o seu primeiro gesto de recusa à intelectualidade Lisboeta que entende como fútil e torpe. Em 1907, ano em que abandona definitivamente o estudo de arquitectura, insiste nesse seu primevo dom. Assim, irá insistir na sua vocação de caricaturista aperfeiçoando o seu traço sintético, manifestando uma franca influência dos jornais franceses, em particular de “L’Assiete au Beurre” onde colaborava Leal da Câmara e onde Juan Gris publicava desenhos. Lentamente, e de certo modo influenciado por um meio dominado pelo “fauvismo”, Amadeo dedica-se à pintura. A princípio nada de especial, apenas alguns pequenos formatos de qualidade muito duvidosa. Decidido a aperfeiçoar a sua nova tendência plástica, frequenta o “atelier” do pintor espanhol Anglada Camarasa detentor de um colorido vibrante e de algum simbolismo estilizado. Exuberância cromática que Amadeo irá interiorizar e que será presença em toda a sua obra, mesmo nas mais tardias. Como resultado imediato desta convivência, produz algumas paisagens dos arredores de Paris onde ainda são notórios alguns tiques naturalistas, afinal o grande estigma do modernismo português e do qual Amadeo será o primeiro a insurgir-se expressando o seu desagrado na recusa à participação na “Exposição Livre” em Lisboa (1911), cujo promotor é o seu amigo Manuel Bentes e onde participam todos os seus companheiros de Paris. De referir que a Exposição Livre, é a primeira manifestação colectiva contra a escola naturalista enquanto expressão plástica dominante. Através deste evento, procura-se uma expressão moderna e alternativa aos Salões da Sociedade Nacional de Belas Artes. Objectivo, unanimemente considerado não conseguido e que irá suscitar um comentário de rejeição a Amadeo a propósito da Arte em Portugal e pronunciando o seu afastamento das vanguardas nacionais: “(...Estou em absoluto desacordo com os meus amigos compatriotas que marcham numa rotina atrasada...)”, escreve Amadeo ao seu tio, para continuar: “Tudo o que aqui se faz é medíocre à parte raras coisas.” Mas se Amadeo não integra os “Livres”, encontra um “estilo” próprio a que não é alheio o convívio com Modigliani, com o qual expõe nesse mesmo ano de 1911 e o qual se refere à pintura do jovem português como: “um estilo precioso e mundano”. De facto, a sua produção até então é notoriamente marcada por algum exotismo, algo decorativo no seu grafismo estilizado e no seu colorido onde se revela a influência do orientalismo dos Ballets Russos de Diaghilev, através dos cenários e figurinos de Golovine ou de Bakst. Peças como “O Salto do Coelho”, “Pont L’Abbé”, manifestam essa influência cenográfica. Ainda em 1911, participa no XXVII Salon des Indépendents de Paris. Em Agosto de 1912, publica um luxuoso álbum de “XX Dessins” cujo prefácio é de autoria de Jérome Doucet, o qual atribui duas grandes qualidades às obras publicadas: “Surpreendentes” e “Decorativas”, “extremamente novos, mesmo depois da surpresa do cubismo”. Para os prefaciados, os desenhos de Amadeo revelam elegância, mistério, imaginação, emoção, poesia e simbolismo, insistindo no lado exótico das composições. Vauxcelles, famoso adversário dos “fauves” e dos “cubistas”, consagra o volume escrevendo no “Gil Blas”: “Acaba de publicar-se um álbum de desenhos que pode dizer-se a coisa mais maravilhosa que jamais viram os nossos olhos”. As “estilizações prodigiosas” lembram-lhe Greco, Cézanne, esculturas polinésias e astecas, numa arte “bárbara” e simultaneamente requintada, antiga e de um modernismo decadente, exagerado, pueril. Após a publicação dos “XX Dessins”, Amadeo toma consciência dos rumos da arte contemporânea, propondo-se abandonar “O sentimento e a psicologia romanesca” que estavam no cerne das suas composições. Facto, que o afasta de Modigliani e motiva uma aproximação aos cubistas que pareciam ser o garante das novas tendências. Ainda em 1912, Amadeo volta a expor no XXVIII Salon des Indépendents e concorre ao X Salon D’Automne – suscitando apontamentos críticos de Appollinaire e de André Salmon. Porém, entre nós, a reacção mais conhecida é a de Sá-Carneiro que, sobre a participação do seu compatriota no X Salon, escreve a Fernando Pessoa exprimindo uma manifesta antipatia pelo pintor que considera, “snobe”, “vaidoso”, “impertinente” e que “se diz cubista”. Para lá das polémicas geradas em terras lusas, a sua presença nos salões parisienses valem a Amadeo um convite do crítico americano Walter Pach ( intimo de Appollinaire), para integrar a primeira exposição de arte moderna a ser realizada nos Estados Unidos, o famoso “Armory Show, de 1913 ( exposição itinerante que irá percorrer as cidades de Nova Iorque, Boston e Chicago), onde apresenta oito obras ao lado de Braque, Matisse, Duchamp, Gleizes, Herbin, Segonzac e dos pioneiros da nova plástica, Cézanne, Gaugin, Renoir, Seraut, Van Gohg. Três quadros serão adquiridos por A. J. Eddy que mais tarde ( 1914) publicará “Cubistas and Post -Impressionism” , no qual faz referência específica a Amadeo, nomeadamente ao seu “sentimento romântico”, “ fascínio da cor e o seu “sentido feérico”. Com a morte de A J. Eddy, as peças passarão ao Art Institute de Chicago onde ainda se encontram. Em 1913, por proposta do casal Delaunay, com os quais iniciara amizade, figurou no I Salão da Galeria Der Sturm de Berlim com três quadros, duas “pinturas” e “O Atleta”, obra bem diferente das que mostrara no Armory Show. “O Atleta”, trata-se de uma composição incerta, composta por uma multiplicidade de triângulos modelados e de difícil identificação figurativa. Com esta repentina incursão no domínio desconhecido, Amadeo terá sido obrigado a recuar para procurar as razões estruturais, obras como a “Casa do Ribeiro” e a “Cozinha de Manhufe” testemunham este movimento. Para críticos como José-Augusto França “A Cozinha de Manhufe” é a primeira obra que o artista consegue realizar plenamente. Com as telas “Barcos à Vela” e “Cavaleiros”, ambas datadas de 1913, definem-se de forma mais densa, situando-se, historicamente, entre um cubismo analítico, empírico e já ultrapassado e um cubismo sintético, já conceptual. De facto, Amadeo move-se entre uma e outra fórmula o que o conduzirá rapidamente a uma outra fase em que a cor desempenhará um papel determinante, influenciado, sobretudo, por Delaunay e já visível em “Cavaleiros”, posteriormente adquirido pelo Musée National D’Art Modern de Paris. Pode-se dizer que com os quadros de 1913, Amadeo encerra a sua viagem pelo cubismo. A sua obra vem agora propor um caminho de passagem do figurativo ao abstracto. Esta nova produção, tratam-se de um conjunto de peças que correspondem a uma pesquisa intensa e rapidamente conseguida. Segundo José-Augusto França, poderão ser classificadas de “puristas”, embora este termo só venha adquirir significado em 1918, aquando do manifesto de Ozenfant e de Jeanneret-Le Corbusier. Ao abandonar a linha cubista, o “expressionismo” poderia ser a fonte de satisfação para o inquieto Amadeo. Assim acontece, embora surja como uma necessidade de ordem temperamental, sobretudo, o colorido violento, de verdes, azuis e vermelhos, tal como a pincelada intensa, reflectindo um movimento de libertação interior. Característicos desta época serão as “cabeças”. “Fumador de Boquilha”, “Luto- Cabeça Boquilha, “Cabeça Negra”, etc., produzidas entre 1914 e 1915, só irão encontrar paralelo no expressionismo de Jawlensky, com a sua produção de máscaras nos anos vinte. Mas a par das “cabeças” há o tema das “violas” e “guitarras” herdadas do cubismo, temática esta que seguirá até à fase final da sua obra em 1917, após as exposições no Porto e em Lisboa. Entretanto, um facto histórico intervém na vida artística de Amadeo, a eclusão da Primeira Guerra Mundial que o faz regressar a Manhufe. O mesmo acontecimento traz os Delaunay, que acompanhados de Viana, se estabelecem em Vila do Conde. Em Manhufe, isolado das novas tendências da arte mundial, apenas mantém contactos esporádicos com os futuristas, sobretudo com Almada Negreiros, e com o núcleo de Vila do Conde, onde o casal Delaunay sempre acompanhados pelo omnipresente Viana desenvolvem o seu trabalho. A partir de 1913, e por influência do trabalho sobre os discos coloridos de Robert Delaunay, Amadeo irá integrá-los na sua obra, embora de uma forma específica e pessoal, aplicando-os quer às paisagens, quer ao retracto. Porém, antes da sua partida de Paris, ainda expõe no XXX Salon des Indépendents e envia alguns trabalhos para uma exposição da Allied Artists Association, em Londres. Aqui termina a sua carreira internacional. A carreira Portuguesa de Amadeo foi breve e insípida, limitada a duas exposições nos finais de 1916, uma no Porto e outra em Lisboa. Estes eventos em que o próprio artista não parece muito convicto, uma vez que só são apresentadas peças soltas, umas trazidas de Paris outras estudos realizados em Manhufe durante as férias, apenas irão suscitar curiosidade, incompreensão, escárnio e a defesa tempestuosa de Almada Negreiros, talvez de todo o panorama plástico português aquele que manifesta uma visão genuinamente mais moderna. Ao longo de 1917, Amadeo realiza a parte final do seu trabalho. Esta obra final apresenta um aumento progressivo de tensão dramática e marca uma espécie de crescimento de raiva que a faz mudar de categoria ideológica. O Futurismo implícito nos anos 15 - 16, vai desembocar numa situação de espírito “Dadaísta, por necessidade lógica e psicológica do autor e não por uma influência cultural ignorada pelo pintor no seu desértico retiro Português. Em 1918, pouco ou nada produz e em Outubro desse ano morre levado pela epidemia pneumónica.
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